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Capítulo 20
Cheguei a algumas conclusões nesse ano de minha vida. Talvez sejam mais confusões do que conclusões. E tenho certeza que vou desejar mudar cada elocubração dessas quando as ler publicado, ou seja, quando outros tiverem a possibilidade de ler também. Mas por hora da ocasião senti assim realmente. Cada frase com sua verdade. O problema é que a gente muda, né? E com a gente nossas percepções. O que antes fora momento de fuga (a viagem pro Peru), passou a fomentar a idéia de fugir (a viagem pra Ubatuba). Falo da casa maravilhosa de Itamambuca. Quis ir pra lá passar as tais férias porque assim protelava a volta pra casa, como se fosse pegar forças pra encarar o que viesse já que eu tentaria não fugir mais. Reparei nesse final de ano de perda significativa que fugia da culpa. Culpa em relação a minha mãe. Culpa por não querer emprestar dinheiro a ela porque sei que vai pra sua desorganização monetária e jogo. Raiva de mim por não conseguir dizer não a ela porque sinto culpa e culpa novamente subseqüente a essa raiva. Culpa por me sentir devedora. Eu não conseguia deslanchar na vida estando perto dela. Teria de aprender já que essa culpa é responsabilidade minha. Ninguém consegue culpar uma outra pessoa sem essa comprar a culpa pra si. Percebi que poderia voltar ainda muitas vezes se não encarasse isso. Mas não sabia como fazer. Realmente não tinha noção do que conseguiria mudar em mim. Mas fugir me remete a outro fugir... Fugir da fuga, ou seja, se achar. Confuso! Eu simplesmente não acreditava... Voltar mais uma vez pra casa da mãe nessa altura dos acontecimentos, nessa idade. O lugar me dá vontade de fugir... como, encontrar, ali? A esperança. Só ela salva. Esperança de encontrar algo que não sei o que é no lugar que sempre precisei fugir pra encontrar esse não sei o que. Cada um é um cada um diferente pra cada um. Uma pessoa não pode “ser assim”. Porque ela “è assim” pra mim, na minha interpretação. Será um “outro assim” pra outra pessoa em sua própria impressão dos fatos. E os “assims” podem ser o que bem entenderem independente dos que acham que eles “são assim”. Podem ser como se vêem e não como os vêem. Ou seja, é um samba do crioulo doido! E funciona até as pessoas resolverem perceber de forma diferente da que causa harmonia. O grande problema de um relacionamento é o “tanto faz”. É pura falta de atenção. Não interessa. Não toca fundo. Nem raso. É ignorado. Quer maior desamor? Não desejo ter isso de alguém e nem dar isso à alguém. Mas acontece. E acontece que estamos na vida para vivê-la. Vida sempre implicará em vivência. Se não, é vida sem vivência, simples assim, ou seja, não me interessa... já que posso dizer que gosto de arrumar “vivências” em mais situações do que deveria pra meu gosto pessoal. Porque as vezes teimamos em ser o que não gostaríamos de ser. Seres bipolares. As coisas do Osho... Esse cara falou que os amantes falam uns com os outros como bebês porque essas foram nossas primeiras impressões: amor, a linguagem da mãe com amor, como bebê, com um bebê, nós. Então por termos isso tão arraigado dentro de nós, damos esse amor ao outro. E a psicóloga disse que não pode falar feito bebê na relação porque infantiliza e crianças não fazem sexo. Com qual desses fico? Eu falo como bebê com o outro, ou como caipira, ou com sotaques, em outras línguas, representando, me vitimando, sentindo realmente, dependendo do cada um de cada um. É sempre uma interação diferenciada. Fico com o Osho... To dando amor! Tive problemas com certas amigas ao sair do Rio. Mas não sou de ter. Ou não fui de ter. Sou distanciada o suficiente de forma a não fomentar esse tipo de coisa. Mas aconteceu. Que loucura. A saída do Rio foi fuga da minha mãe, por isso a culpa carregada em relação a ela, por abandonar ela. Não que sair de casa seja abandonar a mãe, mas pra mim bateu assim por eu estar querendo ver ela e seus problemas que me tocam profundamente e dolorosamente longe. Eu fugia dela. Então vim pra São Paulo da forma que não é correta de começar um casamento. Pra sair de casa. Existe forma correta? Ok, as que por porcentagem, como maioria, costumam dar mais certo. Mas existem as exceções. Será que na saída do Rio eu estava com pensamentos e sentimentos conflitantes: fujo e me caso; por isso atraí problemas com amigas? E não foram só esses os problemas. Meu casamento perfeito foi perdendo o sexo e nada o fazia voltar. E relacionamento perfeito sem sexo é amizade. Porque aí se pode ter sexo, ou amor, ou qualquer coisa com um outro. Está no estatuto. Se não, é um relacionamento com pinta de tanto faz, sem libido. De amigos. Mas vou confessar: que pro que eu queria, que era fugir da mãe, trabalhar, ganhar dinheiro, ser protegida, amizade estava bem bom. Não teria saído dali. Mas me parece que quando a hora chega não tem jeito. Pra mim. Porque acho que pros outros sim... sempre acho que as pessoas se demoram mais do que deveriam em suas questões mesmo sabendo que cada um tem seu tempo próprio. Ou seja, estou julgando, e assim me sentirei separada conseqüentemente, já que se julgo, é porque sou diferente, é porque devo ser melhor. Doideira que só confunde. Faço dois papéis: julgo e me critico por isso. Entendo racionalmente e muitas vezes experimentalmente que “todos somos um” e que “quem nunca errou?”. Daí, entro num momento santo só por um momento, como disse, porque dura pouco, e já julgo novamente. Vou tentando. Vou errando e aprendendo, e errando menos. E a vida muda, e aparecem novas vivências que podem nos levar a novos julgamentos e críticas de nós mesmos por isso, até que não mais somos capazes de nos criticar por cansaço, nos aceitando como irremediáveis. Então mudamos, e não cometeremos mais aqueles erros. Cometeremos outros.
Escrito por Escrito por Reli às 12h49 PM
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Capítulo 19
Catar as cinzas. É o que nos resta. Viver a perda antes de continuar.
Como um acontecimento que vem a deflagrar tantos outros... Vou explicar a minha interpretação dos fatos: Eu sentia que estava preparando a viagem sozinha. Jamaica aceitava tudo, e isso me dava certa insegurança de algo não dar certo ou não ser de seu gosto. Eu lhe passava o que pesquisava e ele falava que tudo bem sem querer saber os detalhes. Poderia ser seu jeito, pois minuciosa sou eu. Até a passagem demorou mais a ser comprada porque foi dada a idéia de esperar o dólar cair mais um pouco. Por mim, já teria comprado bem antes, mas ainda conseguimos um preço razoável apesar de encima da hora, porque era no dia de Natal. A lembrança da Costa Rica ainda era fresca em minha mente. E lá, Jamaica já conhecia tudo, sendo eu apenas escoltada até as melhores praias, pousadas e restaurantes. Como ele sabia muito de lá, criei a expectativa que ele participaria mais até em apenas interesse da pesquisa ou organização da viagem. Mas ele estava tão cansado do trabalho estafante de um ano inteiro, ou então ele era assim mesmo e outras pessoas programaram a viagem como vim a saber depois, que relevei. Como na vez que fui à Costa Rica já era sua segunda vez dele no paraíso, sabia de tudo. Mas eu sentia algo estranho, meio parecido com uma falta de interesse, mas, como disse, busquei justificativas. Quero deixar claro que não estou culpando e nem jogando responsabilidades pra cima do outro. Quando nos deparamos com a não viajem, o acontecimento em si só veio a espelhar sua falta de interesse nesta. Como não estar esperto em todos os preparativos, por exemplo, a validade do passaporte. Em nenhum momento senti raiva ou culpei. Apenas aceitei. Acredito que nada é por acaso e o que vou relatar prova isso. Acontece que a falência da viagem veio a salientar a falência do nosso relacionamento. Acho que pra mim, sair do país era uma fuga, a salvação do que eu vinha sentindo sem entender. Eu vinha me percebendo só mesmo estando acompanhada. Estava precisando de mais tempo com Jamaica, coisa que não acontecia antes quando tínhamos até menos tempo devido à seu trabalho. Estávamos ficando distantes um do outro. Mas isso era encoberto porque nos dávamos muito bem. Sim, éramos muito parecidos, gostávamos de coisas semelhantes, conversávamos sobre assuntos afins, tínhamos maleabilidade, eu de virgem e ele de peixes, servir e doar. Almas gêmeas tão parecidas, que essa qualidade tão difícil de ser encontrada, a cumplicidade, chegava a esconder uma falta de amor. Mas uma falta de amor de homem/mulher. Nosso amor peculiar ia além. Amor de amigos aquarianos. E isso é lindo apesar de triste. Triste porque não ficaremos juntos como um casal, lindo e feliz porque encontrar alguém que se ame tanto como amigo não é fácil. Eu posso dizer que ele é o segundo amigo, talvez o terceiro que encontro nessa vida. Falo de amigo que se pode conversar de tudo e ser entendido, mesma forma de pensar e acreditar o mundo e suas idiossincrasias. Daí me vem uma pergunta à cabeça: É preciso não se dar perfeitamente bem pra o amor homem/mulher aconteça? Separação nunca é fácil, nem com pouco tempo de relacionamento, nem com maturidade. Então, num primeiro momento, ao encararmos com a tal maturidade e apesar de muita tristeza, decidimos que eu voltaria pro Rio. Mas num segundo momento, a dor da separação falou mais alto e resolvemos empurrar com a barriga como forma de tentativa. Ainda nos confundíamos com nossa gigantesca cumplicidade. Então certas portas se abriram... Jamaica ligou pra um casal amigo que aluga uma casa belíssima em Itamambuca, uma praia de boas ondas em Ubatuba, pra saber se eles iriam, porque caso não fossem gostaríamos de alugá-la se eles não se importassem. Dito e feito. Eles estavam saindo de viagem pra França e o tempo foi justo de passarmos pra pegar as chaves. Ficaríamos réveillon e janeiro nessa casa. E que casa! Era mais alta que as demais por que ficava encima de um deck. Seu formato era de um “T”: sala, sala de jantar e cozinha americana na haste do “T”, e quartos, um pra cada lado dessa mesma haste, com um banheiro dividido entre os dois aposentos. Tinha portas de correr de vidro por toda a sua extensão, então, devido ao calor, mantínhamos tudo aberto, o que fazia parecer que estávamos no meio do mato, mas estando dentro de casa. A praia estava a alguns poucos passos, água do mar quentinha, TV a cabo, redes, esteiras, blocos e cintos para Yoga, apetrechos de fazer unhas com direito a francesinha, comida a valer, enfim, todo o conforto. Mas o relacionamento tinha acabado mesmo. Então, como amigos, ainda sem saber como agir devido à proximidade de dias melhores, vivemos nossas férias nesse paraíso. Posso dizer que foi bem gostoso. O meu natural seria aquela “saída rápida pela esquerda”, mas poderiam ficar dúvidas. Assim, vivemos o fim passo a passo. Fácil não foi, mas também não foi difícil, porque como já tinha dito, nos entendíamos muito bem, além de compartilharmos os mesmos sentimentos. O que não estava nos meus planos teria de voltar a fazer parte deles: Rio de Janeiro. De quem eu estava fugindo, teria de ser encararado: minha mãe. O curso de modelagem seria cancelado em prol de se achar um afim na velha nova cidade. Os trabalhos começando a acontecer seriam dispensados, mas eu faria tudo o que fiz em São Paulo de novo no Rio. Procuraria as produtoras de elenco, deixaria então os CDs com fotos numa praça que não tem o profissionalismo da outra mas que é um mercado também. Mais uma vez a volta pra casa da mãe. Será que nunca termina? Mas dessa vez tentaria não fugir. Me parece que a vida e eu mesma sempre me faziam retornar ao seio materno. Devo ter algo pra viver ali que estou protelando. Não será fácil, mas vamos com tudo.
Escrito por Escrito por Reli às 12h06 PM
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Capítulo 18
Quando as trevas tomam conta da vida... Quando você passou uns três meses pesquisando tudo do tudo do Peru, fazendo reserva em hotel, arranhando no portunhol ou consultando tarifas, aceitando indicações de restaurantes confiáveis para não passar mal, encontrando na internet ruínas próximas às praias de ondas com o intuito de refrescar as idéias num dia em que sol, sal e areia juntos me exasperassem, economizando de todos os lados pra que a viagem se tornasse interessante também de um ponto de vista monetário, levando roupa o suficiente pra não agüentar se olhar no espelho em uma semana, mas numa mudança de região ser possível fomentar fantasias que se está usando aquela roupa pela vez um ponto um e não pela segunda, xampu para acabar e comprar um novo no país mais barato, laptop com filmes, jogos, livros, Word, creative, possibilidade de wifi, e peso extra no ombro usável em momentos de tédio, entusiasmo para encarar qualquer tipo de novo, energia para não ser comparada a um ser que precisa de empurrão pra tudo, coragem pra bancar quando algo que for escolhido e pesquisado der errado... E milhões de outras coisas. Então o dia da viagem vai chegando e os ânimos cansados no final de um ano inteiro de trabalho à espera das merecidas férias se percebem de mais bom humor com a proximidade da hora H. Chega o dia D, e com ele, os últimos preparativos do que já estava sendo arrumado com antecedência de forma organizada. A chegada no aeroporto se dá umas duas horas antes das três que eles pedem, horas essas excessivas pra quem espera, nós, e insuficiente para check in e resolução de problemas e listas de espera e overbooking. Mas como nesse caso, o apressado que come cru é o mais esperto, não cairemos nas garras das companhias aéreas famintas por dinheiro. Enfrentamos o silêncio de nada acontecer no momento preciso sugerido de hora de chegada, participamos da fila quilométrica que não anda até andar, e vivemos os últimos momentos de expectativa do ainda estar por aqui. Nossa vez: entregamos os passaportes, descobrimos que o computador deve sair do aconchego da mala e se jogar nos meus braços, pesamos as malas, as pranchas, e uma afirmação corta o ar em nossa direção: “O passaporte está vencido!“ De primeira, caras de nada, de segunda, cara de que América do sul não precisa de nosso passaporte, mas de nossa carteira de identidade apenas, de terceira cara de percepção sem emoção perante a constatação que o outro não trouxe o documento alternativo. A instalação das trevas. Corre, pega dinheiro no caixa eletrônico, pega um taxi, e pega o rumo de casa para resgatar o documento que abre as portas da esperança. Só que a distância é grande. Só que o veículo salvador demora a aparecer. E mesmo assim, contra as forças do infortúnio, um vai e o outro fica. Um agindo e o outro esperando. E o que agiu vai e volta num tempo recorde e inacreditável em se tratando de São Paulo e marginais. No entanto, em se tratando de dia de Natal faz sentido. E chega, e o avião ainda está em solo, e nem todos saíram do free shop. Mas chega cinco minutos depois do tempo dado como limítrofe. E sem consideração nos é negada a felicidade. Os acentos foram entregues a outros dois que provavelmente não poderiam embarcar por ter chegado dentro do tempo, mas, por não terem se antecipado cinco minutos caíram nas garras do overbooking. Tempo perdido. E a única solução é voltar no dia seguinte e tentar embarcar na aeronave que sai às sete. E tem que chegar às cinco já que entraremos na fila de espera do avião lotado e com over booking. E como somos guerreiros, gastamos o dinheiro do taxi que não é barato pela quinta vez, a metade do valor da passagem aérea, mas é o preço cobrado por não se ter olhado o passaporte. Reacendemos as esperanças. Ainda há luz no fim do túnel. No túnel de nossos desejos, de nossas fugas. Como disse, avião lotado. Sem embarque, sem passeio. Aviões com espaço só em janeiro X ressarcimento da passagem. Eis o impasse. A volta pra casa. Pela segunda vez. A derrota. Tentamos e fomos vencidos. Quando algo dá certo aproveitamos, quando não dá, tentamos aprender com o acontecido. Assim aprendi. Pelo menos se faz algo em prol de melhorar. Mas antes vem a tristeza, depressão, frustração, vergonha, indignação, marasmo, olhar no espelho e se achar feia, desamada, um patinho fora d”água neste momento de vida, no fundo do poço, lembrar que não consegue salvar a mãe de seus problemas, constatar que sua cara metade não anda tão demandante sexualmente falando como em tempos de outrora, olhar em volta e ver da mesma maneira, perder o leme, cair no abismo e ter paciência. Que jeito? E a Runa em branco vem falar de morte que abre possibilidades e do controle que foi perdido. E vem a constatação que a gente faz planos e Deus ri.
Escrito por Escrito por Reli às 12h00 PM
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Capítulo 16
Terminado o curso de costura, iria para o Rio no intuito de dar todos os abraços e presentes de Feliz Natal, uma vez que passaríamos o dia vinte e quatro voando. Acontece que foi o melhor preço de passagem aérea que conseguimos. Porque deixamos pra comprar encima da hora. Se tiver Chester à bordo já me sentirei recompensada de não poder apreciar a culinária da Dama pro Natal. Ela que não me ouça, ou melhor, leia.
Acabei viajando para o Rio em um estado de nervos que não me agradava. Acontece que todas as agências que eu deixara fotos resolveram ligar com testes de última hora. Tomei como um presente de final de ano e de meus esforços. Fui a todos os testes, e através destes, conheci o famoso engarrafamento da quinta cidade maior do mundo. Já o conhecia pela TV, mas de dentro do carro parada em uma avenida de uns seis quilômetros foi novidade. E o Jamaica me esperava pra dar carona pra rodoviária e depois seguir para Ubatuba. Eu ficaria uns quatro dias na família e ele em suas ondas. O meu desespero veio de querer liberá-lo pra ir logo pra sua viagem e não pegar os engarrafamentos de sexta-feira ao mesmo tempo em que queria que ele me esperasse não só pela carona, mas pra vê-lo antes de passar quatro dias longe. Ele me esperou. Eu fiquei nervosa com a dualidade de meus quereres. Ele levou o resto da vida pra chegar em Ubatuba além de ser parado por um policial na estrada e levar duas multas por estar com o documento de seu outro carro. Ainda bem que só soube disso ao retornar, pois a culpa me golpearia. Na cidade Maravilhosa usei meu tempo organizadamente de forma a ver todos os que eu queria encontrar e todos os que cobram de serem vistos. Era Natal e eu quis dar esse presente. Consideração. Compaixão. Liguei pras amigas. Um dia inteiro de fofocas na casa da Dama. Jantar com minha prima e sua amiga que adoro. Presentinhos pras criancinhas. Estada com meu grande amigo obcecado por seu filho, sua razão de vida. Novelas, andadas em Ipanema e conversas com mamãe. Me repensei em relação a sentir culpa quando sou cobrada a fazer algo que não lembrei ou queria, e melhor, cheguei a conclusões. Não ir contra mim mesma de forma tão ultrajante. Estar com quem me dá prazer. Não mais fazer o que não me agrada pra agradar aos outros. Não mais me deixar ser levada pra fazer algo que não gosto tanto já que estou sem algo pra fazer. Respeitar o meu tempo. Resolvi demorar mais a ir ao Rio já que tive a impressão infundada que minha mãe estava jogando de novo. Digo infundada porque não tenho provas. Mas a falta de dinheiro continua. Deu um macaco pra sua gatinha comprado em lugar próximo a um Bingo. Me levou na rodoviária e pegou um ônibus de volta que daria no mesmo lugar próximo ao mesmo Bingo. Bingo esse num lugar longe de sua casa, sem atrativos, e que não é passagem pra nada. Contou que num outro dia não deu bronca na empregada por ela não ter limpado o que deveria porque não teria dinheiro pra pagá-la além de ter pedido emprestado à mesma empregada uns trocados para comprar pão. Também me pediu emprestado dinheiro e só não pediu mais porque eu antecipei que não tinha. Não pode passar seu apartamento pro meu nome, coisa que queria fazer pra não ter a possibilidade de perdê-lo, porque o valor venal aumentou e conseqüentemente seu imposto. Falou em pedir um empréstimo pra tal, coisa que fui contra. E ainda contou que emprestou o dinheiro que devia a minha tia pra amiga que consegue os empréstimos pra ela. Coloquei que essa amiga deveria ser muito, “legal” mesmo já que arrumava empréstimos no banco pra minha mãe, mas na hora que precisava de dinheiro pedia emprestado a uma amiga. À amiga pra quem ela conseguia dinheiro emprestado com juros, juros esses que não existiriam em seu dinheiro emprestado. Como eu disse, provas não tenho, mas tenho essa impressão forte. Gostaria muito que fosse paranóia minha nesse momento. Quem sabe? Então resolvi que iria ao Rio novamente na volta do Peru porque precisava acabar uns assuntos lá e só retornaria cinco meses depois. Juntaria o útil ao agradável. Teria curso segundas, quartas e sextas, o que dificultaria as idas à cidade Natal. E se minhas suspeitas tivessem fundamento, estaria longe, pra pessoa em questão se perceber responsável por suas escolhas. Porque eu sei como funciona se eu estiver perto. Os dinheiros gastos serão por causa da minha alimentação, da minha garagem, das ligações pra São Paulo, enfim, por causa de um outro, e não por desorganização sem limites. Há quem diga que estando longe posso estar plantando maiores problemas mais à frente. É verdade, sei disso, mas me sinto de mãos atadas já que minha mãe é possuidora de suas faculdades mentais, muito diferente de meu pai que teve Alzheimer, e foi judicialmente interditado por mim pra que eu tivesse autonomia em seu banco e em sua proteção. Será que ela é mesmo? Vício em jogo? É tido como doença. Mas a gente não prova fazendo exames, só através dos fatos concretos. Doença da cabeça. Como enganam. Sinal dos tempos. Mas de resto, a viagem tinha sido satisfatória e elucidativa. Cada ida ao Rio era sempre uma descoberta de mim mesma. A distância do Estado onde sempre foi a minha vida me ajudava a refletir sobre o que era difícil estando perto. Como passava pouco tempo, dava muita importância ao que faria e com quem, e assim, pude ir percebendo o que e quem me era importante. Então resolvi seguir essa nova percepção em mim dali por diante. Sei que alguns não entenderiam, mas seguiria o meu prazer. Sem passar por cima de ninguém porque não é do meu feitio, e sem fugir às responsabilidades, não perderia tempo com o que me deixava irritada e não gastaria o meu latim com quem vomita as mesmas estórias. Tentaria respeitar o meu sentir. Pode parecer bobo, e é, mas perceber o meu sentir, os meus quereres, vontades e desejos não é fácil. É um desvendar de mistérios. Uma criança aprende tudo isso naturalmente, eu desaprendi e desejo reaprender. Engraçado ter precisado de um ano pra perceber certos sentimentos e ainda me sinto engatinhando. Mas aproveitarei essas viagens esparsas pra me perceber perante todos os percalços. Mas tudo deu certo como disse. Tive tempo de comprar os presentes que faltavam na rodoviária de Sampa já que meu ônibus demoraria um pouco pra sair devido ao movimento de quem já estava viajando para o Natal. Inusitado. Compras na rodoviária. Mas comprei o que faltava rapidamente e acertadamente. Não teria de perder tempo com isso no Rio. Estava um pouco preocupada com tudo dar certo em minha futura viagem porque tinha sido eu a pesquisar e organizar tudo. E não me incomodei de viajar no dia vinte e quatro. Minha mãe sempre dormiu no Natal. Quando pequena, passava com meu pai e sua família. Já fui agregada em muitas casas nas festas É sempre aquela sensação que não se é dali. Mas isso não é uma questão difícil, pois me é bastante conhecida. Se existe algum pesar, é o de não passar a noite do dia vinte e quatro na casa da Dama já que ela e família estariam pelo Rio. É como um outro dia qualquer, mas com alimentos super elaborados, com visitas de amigos dos filhos o que faz ficar divertido. E lá me sinto pertencendo. E não sou só eu a agregada. Como já contei antes, a casa da Dama é de agregados. Compromissos satisfeitos. Chegou a minha hora de voltar. Voltar pro que seriam as minhas férias. Uma vez em São Paulo, só faltava fazer as malas, coisa que não me daria trabalho algum. Levaria pouca coisa. Não queria peso. Só queria ir pra um lugar diferente viver experiências novas. Não que eu precisasse de férias, mas Jamaica sim. Estava estressado e cansado com o ano inteiro de trabalho. Peru com seu Macchu Picchu, Aí vou eu!
Escrito por Escrito por Reli às 12h29 PM
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Capítulo 15
Já que São Paulo era uma abertura a novas possibilidades, porque não a costura? Sempre tive vontade de aprender a costurar. Ainda não sei se era uma idéia fantasiosa romântica, um achar que tenho jeito pra tudo incutido por minha mãe, os dois, ou se tinha vontade mesmo. Como perceber meus próprios sentimentos não era o meu forte, porque não tentar já que dispunha de tempo e dinheiro? Acontece que em minha cidade natal, embora eu já tivesse manifestado o desejo de aprender dessa arte, não me permitia ir além me escondendo atrás de um preconceito burro. Só hoje percebo isso. Em parte porque estou distante, e Distância e Tempo fazem milagres. Eu sempre vi pessoas mais simples costurando, então não me abria ao impulso de procurar um curso ou uma professora. Porque isso era pra gente que não teve as oportunidades que tive. Grande estupidez de classe média brasileira que não é e nem deixa de ser; ou melhor, já deixou de ser há muito tempo, mas não é interessante enxergar dessa forma. Mais essa descoberta das sujeiras da personalidade me levaram a outras descobertas afins. Tudo tem seu tempo. Mas estas ainda não vêm ao caso. Mas virão. Como o também escondido desejo de cortar cabelos.
Internet. A grande aliada dos “sem conhecimentos”. Era com a ajuda de meu amigo computador que acharia meu novo velho desejo. Logo de cara percebi que teria de ser um curso bem básico, porque máquina de costura para mim era quase como acabar com as pragas da Gardênia. Uma tarefa impossível, mas que eu haveria de continuar tentando por ser uma pessoa de fé imbuída de esperança. Entre alguns cursos e algumas ligações com o intuito de esmiuçar detalhes, acabei por escolher o mais próximo de minha casa, que era também o de interessante valor, e o mais reconhecido. Sem saber se realmente me interessaria, fiz a inscrição. Costura e Acabamento básico. Esse era pra mim. Tive muito tempo pra pensar em toda sorte de ciladas que nossa mente prepara já que o curso foi adiado por falta de quorum. Mas deu tudo certo, porque mesmo assim, ainda deu pra fazê-lo e terminá-lo antes da viagem de fim de ano ao Peru. Heroínas. Esse deveria ser o nome dado às costureiras. Que tarefa difícil. Voltando ao julgamento preconceituoso, eu, no alto de meu castelo, pensei: se elas, que são pessoas menos endinheiradas, conseqüentemente com menos preparo, lidam com isso, porque não eu, que tive uma boa educação, considerada inteligente, com raciocínio lógico, não aprenderei fácil? Que vergonha de pensar assim. Por isso assumo: pra sentir mais vergonha e endireitar. Peço desculpas. Essa lição eu aprendi. Ledo engano. Lidar com a máquina nem é o pior. Funciona como com o computador; parece Grego no início, mas, uma vez aprendido, tem que estar sempre usando se não esquecemos os caminhos. A costura em si é o mais trabalhoso, e, na minha opinião, a ordem dos fatores. O que fiz no curso, e não vou dizer que aprendi porque não sou capaz de reproduzir novamente, mas o que fiz, que foi uma saia reta, uma bermuda e uma camisa, aconteceram porque a professora vinha na mesa de cada um dar o próximo passo. E se ela dava dois passos de uma vez, aconteciam catástrofes. Porque desfazer costura é como andar de costas por um caminho lamacento feito errado, um tempo porco perdido que terá de ser feito novamente. Experiência de vida. Aprendemos com os erros. E nessa hora, enaltecemos as “Heroínas”. Tudo é difícil desde fazer linha reta. Pra uma iniciante. Mas não posso cair no erro de subestimar a tarefa contando com a prática que trará mais facilidade no manuseio dos instrumentos cirúrgicos. Muitas vezes, quando não estamos conseguindo algo, apelamos para força puxando o tecido quando a máquina faz esse trabalho com esmero, ou quase quebrando algo pra engatar uma bobina, ou apenas um ataque de fúria por não acertar o buraco da agulha. Como muitos que consideramos ignorantes, sem capacidade de resolver suas questões com argumentos. Muitas vezes desistimos ou tentamos literalmente esconder por baixo dos panos nossos erros pra não termos de voltar atrás. Esses desvios de personalidade acabam por aparecer mais na frente, ou simplesmente não poderemos dar um próximo passo porque algo que a professora não sabe bem o quê, estará dando erro. Nós saberemos. E teremos de voltar não um degrau atrás, mas alguns. E mesmo se não admitirmos, a professora perceberá. Bolsos. Se existem bolsas, pra que bolsos? Os homens não usam bolsas; mas suas mulheres usam; mas podem não ter mulheres; então arranjem; mas podem ser gays; então podem usar bolsas. Problema resolvido. Copiar moldes; cortar tecido; passar o overloque; colar a tela com o ferro; passar isso; passar aquilo; passar bainha; passar dobra; colocar o viés; E reclamamos dos preços das roupas. Mas como Deus escreve certo por linhas tortas, o resultado enganoso satisfaz. A maioria dos erros ficará escondida nas costuras que estão por dentro e nos acabamentos que estão por baixo. Se a peça não tiver sido cortada com o fio reto enviesado, ou for de mau gosto, ou tudo estiver muito torto, e isso não acontecerá porque a professora estará alerta no primeiro e terceiro caso e no segundo porque são peças básicas, como diz o título do curso, poderemos usar sem fazer feio. Como na vida, os desvios estarão escondidos, o que se vê por fora é uma máscara, a persona, como diria Jung, o ascendente para a Astrologia. Mas não deixam de estar em nós, ou seja, são de nossa personalidade e responsabilidade. Talvez eu precise voltar à Psicanálise pra costurar.
Escrito por Escrito por Reli às 12h08 PM
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Capítulo 14
Como estamos ávidas em organizar a vida no lar, temos de passar pela “Guerra aos Pulgões”. Mas pra chegar à esse ponto existem preliminares. Existe uma postura em Yoga que é a Postura do Guerreiro. Não deve ter esse nome atôa. Patanjali deve explicar, ou o Mahabarata, ou deve ter aparecido na novela da Índia. Acontece que tenho evoluído nela, e penso que isso seja devido à ”Guerra aos Pulgões”.
Jamaica coloca uns colares indianos em suas estátuas e um dia desses um amanheceu quebrado. Ele me mostrou e disse que aquilo significava mal olhado. Pra ficarmos alertas. Isso ficou em minha cabeça, e juntei outras sincronicidades. Na noite que o colar arrebentou, sem saber, por coincidência, pedi pra Jamaica finalmente dar uma olhada em meu computador com o intuito de tirar um possível vírus que estava pegando meus contatos e mandando emails falsos pra todos eles já fazia um tempo. Pode ser mau olhado disfarçado de hacker. Ao mesmo tempo me dei conta que os pulgões, ou seja, lá o que for uma espécie de pó branco que gruda atrás das folhas das plantas junto com uma espécie de ovinhos marrons sempre atrás das folhas e não na frente. Pra dificultar, tinham de ser exterminados. Porque estavam em grande quantidade e estavam tomando conta da varanda. Os vemos pela cadeira, pelo chão e pior, voando para as outras plantas. Quero salientar que a pequena varanda abriga uma Jabuticabeira anã, mas que já não é tão anã assim, porque como já encontrou o teto, está por hora, desbravando os arredores; uma Gardênia que dá apenas uma vez por ano umas flores lindas e cheirosíssimas, mas que clama por uma praga; uma bromélia com quatro flores colossais, mas que estaria mais bem localizada grudada em uma árvore; um Hibisco bebê promissor e uma Sálvia. Eu preferia trocar a Jabuticabeira, a gardênia e a Bromélia por duas cadeiras e uma mesinha de forma a fazermos o desjejum agradavelmente nos meses quentes, mas cheguei depois delas. Essa mudança requer psicologia, ou pragas. Nada é por acaso. Mas como não quero tufos brancos em meus cabelos, e como essas pragas podem fazer parte do mau olhado. Rumo à exterminá-las. Não é uma função agradável, faz doer os braços, te molha toda e é por demais nojento. Já temos um remédio com cheiro de água sanitária que se coloca à noite nas folhas uns três dias de quinze em quinze dias. Claro que esse método com datas precisas não funcionou. A Internet havia de me dar soluções mais cômodas. E dentre todas, fiquei com a mais fácil. Dar água com sabão de vez em quando pra elas além de limpas suas folhas com água com detergente. Essa última foi uma invenção adaptada minha. E essa parte de limpeza das folhas é a “Guerra aos Pulgões” em si. Precisava ser antes da secretária chegar, pois sendo o apartamento pequeno, quando ela entra às oito da manhã, toma conta de todos os espaços. Conseguir arrumar o almoço me debatendo nela fazendo limpeza na cozinha minúscula é um desespero, mas tem coisas que não podem ser mudadas. Daí vocês podem pensar, porque não faz essa limpeza em outro momento? Porque os momentos já estão em seus mais acertados tempos. Ela chega uma hora depois de Jamaica ir trabalhar. Pra eu poder acordar, tomar café e me preparar para ela. Até as dez horas estou em casa, portanto, no computador, portanto, na saleta, portanto, ela estará arrumando a sala, banheiro e quarto, porque quando eu sair pra Yoga, ela adentrará a varanda imunda da “Guerra aos Pulgões”, e passará as roupas e guardará no armário antes da volta de Jamaica pro almoço. Quando eu voltar, e Jamaica já estiver em casa faminto, terei de dividir a cozinha com ela, e teremos de comer na cama de casal porque a saleta com seu banheiro/armário estará sendo desinfetada. Então, a “Guerra aos Pulgões” precisava ser no horário entre safra (entre a saída de Jamaica e sua chegada). Já que é pra trabalhar no horário em que as pessoas deveriam estar dormindo, porque não aproveitar pra fazer ao mesmo tempo o frango do almoço? Sou mestra em fazer coisas ao mesmo tempo, pra depois não fazer nada, matéria que dou aulas também. Até pra escrever sobre a “Guerra” protelo. É por que é uma empreitada. Mas vamos terminar logo com isso que já está chato. Roupa leve, borrifador cheio de água e detergente em punho, e rumo ao assassinato da praga. Cada folha será esfregada gentilmente levando jatos da tal mistura de forma a fazer soltarem os pós brancos e os ovinhos marrons. Já tentei usar luvas, mas por perder o tato, destruí muitas folhas saudáveis. É com a mão mesmo. Nos adaptamos a tudo nessa vida. Até a sentir uma cosquinha no braço e ver uma larvinha branca caminhando. Embora a Gardênia seja melhor, é mais chata, pois tem a mania de fabricar um pó preto em seus galhos, e é nela que estão os ovinhos marrons. Precisa de mais paciência. A Jabuticabeira ajuda, pois seus pós brancos se desprendem mais facilmente, só que ela é enorme. As outras são mais fortes e me parecem mais resistentes ao “mau olhado”. E a Sálvia tem seus poderes e não pega nada. Trabalho finalizado. Mau olhado limpo. Mês que vem tem mais.
Escrito por Escrito por Reli às 9h30 AM
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Capítulo 13
Vida de dona de casa assumida, nota seis e meio sem cobranças, empurrando com a barriga o que pode ser postergado, mesmo assim, uma hora chega o dia do mês em que a criatividade não é mais capaz de inventar receitas com o que sobrou. Chega o dia que não sobrou mais nada. E mesmo assim ainda podemos atrasar para dois dias seguintes se for um fim de semana com promessas de pizza, japonês e indiano. Mas uma hora a dura realidade terá de ser encarada. Pão com pão porque não tem manteiga; chá porque não tem leite; sopa de ervilha porque sobrou só esse saquinho no armário. E então, temos pela frente umas três horas num dia de compras e umas duas horas no dia seguinte: a entrega.
Parece fácil. Nem é tanto tempo assim. Quem nunca passou por isso não pode falar nada. E pra quem pensa que as compras demoram porque leva um tempo pra ir e voltar do supermercado, erraram redondamente, as compras são feitas via internet, pelo computador, coisa chic de gente moderna. Só que a moderna é do signo de virgem. E pra quem se ilude achando que a virginiana com sua organização demoraria menos, se enganou novamente. A virginiana com sua organização demora mais. Porque vai olhar tudo nos detalhes, vai fuçar pra ver se acha algo novo, vai ler os ingredientes, vai procurar uma lista antiga de compras que com muita organização foi salva em um dia que não é lembrado. E vai ver se as promoções valem a pena. E se valerem, compra a promoção, vai na lista, exclui o artigo preterido, e volta pra loja. E a maioria dos produtos vêm separados por marcas, e cada uma tem seus atrativos, e compramos coisas de uma marca e de uma outra pra compararmos preços e excluir no final. E tudo isso com a pequena espera de mudar de uma página do site pra outra. Tem que ter uma dose de chatisse no ser pra fazer isso. Mas "isso" é melhor que ir no supermercado? É. A entrega é o final do começo. As compras chegarão pra começarem a acabar. Administração de cozinha é um trabalho não reconhecido. “Elas” estão certas. Todas as “Elas” que reclamam. Eu sou uma com “Elas”. Não somos separadas. Somos uma classe sem salário. Mas temos nossos ganhos. Por isso nos responsabilizamos por nossas escolhas. Eu pelo menos. Discursos a parte, as compras chegam no espaço de tempo do dia marcado no dia seguinte, e sem pensar guardamos tudo. Porque senão derrete. Porque senão apodrece. Porque senão bagunça. Porque senão teremos de fazer o trabalho sujo mesmo assim com a diferença de ser mais trabalhoso porque vamos ter de limpar o que ficou sujo por não termos agido encima da hora. No quesito arrumar muita coisa em pouco espaço venho me graduando com muitas superações. Que capacidade de fazer o espaço render. Instinto de pobre. Na gaveta da geladeira, limões embaixo de tudo soltos porque tomaremos suco ao longo do mês e é fácil enfiar a mão na gaveta cheia e achar um cítrico. Acima, ainda na gaveta, o que não estraga tão fácil: cenouras, cebolas, batatas, conjunto feijoada, alho, pimentão e o que couber. Mas nunca cabe algo mais. Na tampa da gaveta, os fins de semana: nhoques, tagliateles e algo que não coube na gaveta. Andar de cima, o que estraga rápido: folhas, ervas, tomates, e as folhas de alface já lavadas antes do resfriamento. Acima, potes com comidas prontas tipo arroz, feijão, queijo minas, o que estiver pra ser comido e carnes pra fazer no dia seguinte. E no primeiro andar, artigos de primeiras necessidades: manteiga, alguma panela com uma sopa, missô, algum pão de alho, pasteizinhos, uma derradeira fatia de pizza. Chegando finalmente na cobertura, o congelador é um doutorado em organização. Devido ao seu tamanho. Pequenino. Filets de um lado, músculo do outro pra não confundir, um sorvete pra atrapalhar com sua forma pouco adaptável, atrás de tudo as coxas de frango, já apoiadas na polpa de açaí que mora ali pra sempre em seu lugar cativo, os gelos, e uma garrafa de vodka. Armários também têm suas ordens, menos o de limpeza. Como neste não toco, apenas empurro o que comprei pra dentro. Cabe à minha secretária essa organização. Ela que usa, ela que arruma como gosta. E os extras: coisas de banheiro, terra e vasos pras plantas, alguma florzinha bonita que sorriu pra mim no site... Findo trabalho, Estafa! Esse exemplo de admistração levou sete meses para chegar onde está. Com louvor. Só que quem dá as notas tem interesses escusos, pois: Sempre esqueço algo. Não sou das mais arrumadas. Não passo o dedinho depois que a secretária se vai. Quebro copos. Adio as louças. Não varro chão. E vejo novela.
Escrito por Escrito por Reli às 7h55 PM
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Capítulo 12
Descobri na íntegra que o corpo tem memória. Ele se lembra. Eu já sabia, mas não tinha a certeza prática da coisa. A cada vez que faço Yoga, a reboque, vem um cansaço sem tamanho como o que senti na prática de oito horas com a nazista espanhola. O corpo lembra do que eu o fiz passar e me joga na cara em forma de cansaço. Um corpo vingativo. Com mágoas. Brincadeiras a parte, o que acontece é que me aprofundei nas posturas e aprendi um pouco mais a chegar mais perto do alinhamento requerido. E isso, no meu caso, requer esforço, e o que acontece é que nas aulas tenho dado mais de mim pelo fato de saber melhor como fazer. Mas como ninguém é de ferro e merece algum relax, o repórter do tempo prometeu fim de semana de sol com alguma nebulosidade no litoral. Careço disso.
Ubatuba achou que não. Do contra. Em todo o Estado de São Paulo fez sol, menos em Ubatuba. Não sei por que eu acreditei na meteorologia, afinal de contas, foi noticiada certa nebulosidade no litoral. Mas nublado? Acho que tive necessidade de ter fé no Sol, nosso Astro Rei, Estrela de Quinta grandeza, esse Luminar. Mas já vi esse filme antes, e não é novidade Ubatuba ir contra tudo e todos no quesito nebulosidades, chuvas, etc. Pelo menos não choveu. E isso é um grande presente que aquelas terras do lado de lá daqueles morros dão. De vez em quando. Jamaica que já morou em “Ubachuva” diz que é muito difícil uma pessoa sair de lá. Existe essa lenda. A pessoa não consegue se desgarrar. Parece que o lugar tem uma energia esquisita devido à tráfico de escravos. Algo nesse sentido. Mas eu acho que essa energia é invejosa de quem quer sol pra tostar o corpinho e ter cara de saúde em Sampa. Daí ela se concentra como uma barreira no alto das montanhas encurralando as nuvens. Essas, sem saber o que fazer, choram. Se eu fui escravo em outra encarnação certamente estaria lá soprando as nuvens junto com meus colegas de cor. Não deixaria ninguém ficar pretinho não. Não ali. Mas já que na praia não teria sol, aproveitei pra fazer tour na cidade. Adoro. E acabei comprando uma bicicleta. Eu trouxera a que costumava deixar no litoral pra São Paulo. Pra andar aqui nos feriados. Mas precisaria de uma pra lá. E escolhi uma como a que eles têm. Nada como viver a cultura do local. A marca é “beach”, é roxo dégradé, tem cestinha, e não fico caída pra frente como numa bicicleta de corrida, fico retinha. Fiquei radiante com minha nova aquisição. Porque já não dei muita sorte com bicicletas. Uma vez um namorado mandou vir uma bicicleta sensacional de fora. Quando acabamos, devido à tragicidade da situação ocasionada por mim, não tive coragem de pegar meu caro presente. Quando meu pai morreu, fiquei com a dele e a transformei no meu sonho de bici: com banco fofo de mulher e guidon alto pra não doer as costas. Me lembro de um machucado que meu pai fez com o pedal dela e se transformou em erisipela. A bicicleta se mostrou revoltada comigo também, e era dura, uma verdadeira musculação, um desprazer em forma de passeio. Então, passei adiante, dei pra uma amiga que tomou um tombo e veio me perguntar se podia ofertá-la a alguém porque existia uma maldição na dita cuja. Claro que concordei. Ela tinha. Coitado do próximo. Quando morei só na Gávea, comprei uma mais barata com medo de ser roubada. O freio dela era a grande roubada. Deve ter durado uma semana. Nunca vi algo enferrujar tão rápido nem naquelas bandas de lá onde a maresia impera. Tive de colocar freios novos e decentes. Deixei-a com cadeado embaixo de uma área fechada do prédio. Algum invejoso da minha bike vagabunda furou meu pneu. Consertei. O barato acabou saindo caro. Mas é outra coisa que também já sei e ainda insisto em resultados diferentes com ações iguais. A gente se acha superior, por isso age assim, não percebemos que é burrice. Ou melhor, sabemos disso sim, mas tentamos passar a perna no andamento das coisas. Pra que? Também sei a resposta: pra acharmos que somos mais poderosos que as forças da física, do universo, de Deus. Logo depois vim morar em São Paulo, de modos que a vagabunda está no Rio enferrujando ainda mais com a maresia. Mas se todo mundo anda com bicicletas enferrujadas em Ubatuba e elas não se intimidam, porque não no Rio?
Escrito por Escrito por Reli às 11h01 AM
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Capítulo 11
Há coisas que já sabemos, mas que fazemos a questão de esquecer. Não sei por que isso se dá, mas deve ter alguma relação com tentar um novo resultado com uma mesma ação. Em outras palavras, estupidez. Pois eu já tinha aprendido em minha vida que movimento atrai movimento. E vinha me fazendo de besta. E vinha me achando muito parada. Logo, deveria me mexer pra que o universo conspirasse e pudesse fazer seu papel. E demorei um pouco pra me lembrar disso. Mas tudo bem, porque deveria ser só a milésima vez esse ano. Os lembretes astrológicos que li sobre a crise da meia idade me dão certo respaldo e justificam meu corpo mole. Existe um certo trânsito de Netuno que deixa as pessoas meio perdidas. Não que eu tenha sido muito achada durante a minha vida, mas nesta fase, estou como na Space Mountain da Disney. É uma montanha Russa no espaço, onde tudo em volta é escuro. Ficamos sem saber pra que lado jogar o corpo, pois não vemos o lado das curvas. Então a toda hora tomamos um solavanco. Eu diria que nem os solavancos estão fazendo parte dessa minha passagem. Estou totalmente desprovida de Iniciativa. Saturno em Áries. Mas sem atinar com tudo isso, tive um solavanco em forma vontade e resolvi fazer o curso de uma professora espanhola muito bem recomendada por Jamaica, que dava aulas de Yoga na Alemanha. Recebi um email da associação de Yoga à qual pertenço dando todos os detalhes. E o principal era que pessoas que tinham um mínimo de seis meses de prática poderiam participar do módulo um. Eu teria no mês do curso o tempo cravado. Fiquei insegura, não sabia se estaria preparada, mas seis meses de prática eu tinha e era isso o que pediam. Me inscrevi, paguei e esperei ansiosamente. Devo ter sido a primeira a fazer inscrição, tamanha a vontade de participar. Seriam dois dias de trabalho intenso e eu estava empolgada por começar a participar de forma mais participativa nesse universo que vinha se abrindo. Fiz questão de fazer dois “aulões” que tiveram antes do curso na minha academia. Por prazer e pra ir me preparando pro tempo que passaria praticando. Posso dizer de antemão que os “aulões” foram por puro prazer apenas, porque não chegaram aos pés, em se falando de cansaço, do que foi o curso. Na mesma época aconteceu um fato um pouco chato. Uma grande amiga do Rio querendo vir passar justo o fim de semana do curso, em São Paulo comigo. Em princípio disse que sim, mas pensei melhor e tive de me retificar e dizer não. E isso me doeu. Dizer não pra um Mercúrio em Libra não é fácil. E não poder abrigar uma amiga no novo lugar em que vivo mais ainda. Dei boas justificativas, mas, penso que não foram suficientes, porque ela voltou a salientar que não teria outro sábado com folga, e se não poderia passar pelo menos o segundo dia. Tive de negar novamente, mas desta vez sem explicações, pois estas já haviam sido dadas. Porque as pessoas não aceitam de primeira? O que me fez mais mal ainda. Porque pensei que naquele momento estava acontecendo com ela, mas seria bem possível que acontecesse com outras ou com minha própria mãe. Mas é a vida, ou melhor, o espaço. O fato é que pra alguém vir pra cá, Jamaica precisa sair. Ou melhor, ir passar o fim de semana em Ubatuba. E a casa é dele. Eu que vim morar aqui. Isso acontece porque o apartamento tem o formato de um estúdio. Quarto, cozinha americana sem dependências, varanda e saleta sem porta dando na sala de estar, que não tem nada a não ser, estátuas, cobertores, blocos e cintos destinados a pratica de Yoga. O sofá da saleta sem porta não me cabe, que dirá a Girafa que queria espairecer na selva de pedra. Outra coisa que não condiz. Enfim, cada um com seu cada um. Ela teria de dormir encima dos cobertores, que são muitos, que estariam no chão, de mármore. E não ficaria mal se estivesse frio, porque se fizesse calor... Mas teria de sair de cima deles cedo, pois os levaríamos pro curso. E o canto de chão que sobra na saleta não é sufuficiente pra caber uma pessoa. E banheiro de banho é dentro do quarto do casal. Mesmo que Jamaica fosse dormir não poderíamos nem conversar direito, pois a máxima que diz que as paredes têm ouvidos cabem aqui. Mais propriamente nos prédios novos onde as paredes parecem de gesso. Não se conseguem nem pendurar um quadro sem alastrar o furo pros lados. E os gemidos alheios... deixa pra lá. Sem falar que estaríamos cansados e sem energia pra sair, e jantar, e arrumar café da manhã. Uma falta de conforto que eu não gostaria de proporcional à minha amiga. E nem ao dono do apartamento. Resolvi sem ter de comunicá-lo. Eu também não gostaria de ouvir uma negativa caso tivesse de pedir isso a ele. Com a vivência do curso constatei que estava certa e seria impossível abrigá-la em casa. Participaríamos os dois, eu e Jamaica, só que ele faria três dias a mais por ser graduado. Fiquei um pouco ansiosa no dia anterior. Era novo. Gente nova. Muita gente. Mas fui me interando com Jamaica que já era um veterano. Marcar o material, preparar a espécie de bolsa com os cobertores, cintos e blocos, o telefone do taxi que eu chamaria já que nos encontraríamos lá. Jamaica tinha de dar aulas antes. Mas, como não havia mistério, correu tudo bem nos dois dias. Fora a estafa. Nunca fiz oito horas de exercício com uma parada de uma hora pra almoço em minha vida. E fiz sem economizar, embora tenha tentado. Pois meu corpo é tão travado de anos de pesos e nenhum de alongamento, que se eu não fizer de forma inteira não acontece. E as dicas que essa professora Sênior dava foram muito elucidativas pra eu entender como fazer meu corpo obedecer ao que é mandado. Embora ele siga a crise e se faça de besta. Acontece que ele não está preparado. Eu entendo o que é pedido, mas o corpo não obedece. Até obedecer. Isso acaba por acontecer de um momento para o outro. Mas chegou uma hora do segundo dia que eu sentia vontade de chorar toda hora que não conseguia algo. Mas como não sou criança e tenho vergonha das pessoas, não chorava, é claro, e fazia. A professora é uma espanhola pequenina com uma energia sem fim. Os pequeninos têm que ser assim. Pra alcançarem o que desejam, porque o tamanho não ajudará. Miniaturas Pincher. No caso dessa, uma formiga atômica. Dá aulas na Alemanha por ser casada com um alemão. O que me fez entender seu jeito nazista espanhol de dar aulas. Mas falo isso no bom sentido e com carinho, porque foi com a energia dela que cheguei ao final de meu módulo. Se tivesse de usar apenas a minha teria desistido. O interessante é a sensação do corpo. Não é uma dor avassaladora no dia seguinte de uma musculação pesada. É um corpo mexido, tocado, em suas estruturas, ou melhor, em seus espaços. Espaços esses que antes não tinham sido abertos, portanto, desconhecidos. Daí também eu não conseguir explicar o que acontecia. Era-me desconhecido. Quando chegava em casa não queria nada além de tomar banho e me encostar. E o pior, não tinha sono devido à energia que a coisa toda dava. Mas como a Maria de casa sou eu mesma, tive de preparar sopa pro jantar. Com a ajuda de Jamaica, mas tive. Fiz uma tonelada, pra três dias, pra não ter de ser criativa nos outros dias. Não sobrou energia pra isso. Me percebi nesses dois dias mais aberta a ficar irritada. Mas é assim mesmo, pois fomos levados a dar nosso máximo, à exaustão, não sobrando muito bom senso pro que acontecesse de errado em volta. No domingo seguinte ao meu segundo e último dia de prática não fiz nada. Revezei-me entre a cama e o sofá. E dei graças a Deus por estar só em casa e não ter de dar atenção a ninguém. Mas tentei fazer um pouco de Yoga. Porque ela havia recomendado pra que não perdêssemos o aprendido. E até suei, mas meu corpo sentiu falta do lugar aonde foi levado. Ele tinha dado muito mais de si nos dois dias passados. Ele fora capaz de se superar. E tive dor de cabeça também. Já essa, não sei se veio da estafa ou das trufas da noite anterior. Se eu tivesse de arranjar disposição para minha amiga, não teria podido escrever essas linhas. Não estaria mais nesse mundo.
Escrito por Escrito por Reli às 1h34 PM
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Capítulo 10
Nunca foquei tanto em praia como nesses tempos. Quero dizer, penso que tenho ido mais à praia que no Rio. Acho que porque lá, as areias estavam logo ali ao meu alcance, então me dava o luxo de fazer outras coisas. Ter outras perspectivas. As vezes. Porque carioca fica meio sem opção, por opção, quando faz sol. Fez tempo bom: praia. E lá se vai o dia inteiro já que o almojanta acompanha o evento. Aqui, a necessidade de sair da megalópole é grande, então, quando se tem um marido que surfa, o resultado é: praia. Outro estudo que faz parte de minhas indagações psicológicas. O fenômeno surfar depois dos quarenta. Já vi esse filme antes e agora estou vendo de novo. Parece que os homens adeptos desse esporte, ao completarem essa maioridade, se tornam fanáticos por ondas. Só pensam em lugares pra viajar com ondas. Fim de semana com ondas. E se ficam em São Paulo, vêem filmes de ondas. Sites de ondas. E sofrem se souberem que entrou uma ondulação tal, um vento sei lá qual, etc, etc, etc. Se torna uma religião. Vivem pra isso. Precisam ter essa prática como rotina. Já passou o tempo que melhoravam nas manobras por pura energia da idade de ouro. Que eles não me ouça. Todos sabem disso, mas não concordarão. Faz parte da crise da meia idade, negar o que não é mais como antes. Então o jeito, pra se atingir uma performance aceitável, é transformarem o surf em meta de vida. Amém.
Mas ando sentindo falta do mato. Adoro uma cachoeira e a paz que as montanhas me passam. Parece que posso ver a energia que sai das plantas, como aquela fumacinha cheirosa que sai de um prato apetitoso, te embalando e carregando ao encontro desse prazer que é comer. Sofro disso. Prazer em comer. E comer muito. Devo afirmar o contrário, segundo o segredo, pra comer menos já que as afirmações farão resultado. Mas vou abrir uma licença poética. As vezes abro também no meio da noite, mas isso é outro assunto fora de questão. Só acontece quando me aparece um desejo inconsciente causado por algum fator externo e consciente. Mas parece que no frio de uma Serra, é mais gostoso ainda ousar nesse pecado. A gula. Fondue em Teresópolis. Pé de moleque, croquete de carne e sanduíche de lingüiça em Petrópolis. Sopa e churrasco na Sibéria. Truta em Mauá. Que saudades das quedas d”água deste último. Já passei umas poucas e boas por ali. Como quando era bem nova e estava começando a fazer teatro. Fomos de ônibus, eu, Marinha e Ximbinho. Alugamos um galpão encima de uma casa bem na rua principal de Maringá. Que era bem calma nessa época. E sofremos com a teimosia destemida de Marinha de tomar alguma droga. Mais precisamente chá de cogumelo. Estávamos na idade das experimentações. E nas caminhadas, não encontramos nada pra aquietar a menina. Parece que precisa chover e fazer sol depois pra que das fezes de um boi em especial nasçam os fungos. Não vi chuva e nem bois por lá. Resultado, a garota ia parando todo mundo que cruzava o nosso caminho perguntando se sabiam onde tinha o tal cogumelo. Por medo de ficarmos visados por aquelas bandas, Ximbinho se prontificou a arrumar alguma coisa. Nós, meninas, íamos caminhando pela estrada de terra rumo a Maromba, e Ximbinho, como um Tarzan, fazia o mesmo caminho, paralelo a nós, só que pelo rio. E neste, foi encontrado o tão sonhado entorpecente. Na verdade, uma variação bem aquém dos almejados cogumelos. A Trombeta. Que é o lírio, que nasce nas encostas de terra dos rios. Mas Ximbinho avisou que aquilo não era bom, que o que se sentia era pesado, do mal mesmo. Não adiantou, Marinha tinha idéia fixa e poderia ter um troço se não experimentasse nada que a tirasse de seu mundinho conhecido. Uma vez com as lindas flores na mão, precisaria de um fogão, panela e água para fazer o chá. Não tínhamos isso. A sem noção, desceu na casa embaixo que nos alugou o galpão encima, e pediu pra usar o fogão. Ficou muito claro que aqueles inquilinos, nós, queríamos enlouquecer. Pra nossa vergonha, minha e de Ximbinho, pois nem queríamos, mas por estarmos juntos levaríamos a fama. Mas isso não é uma grande questão em Mauá já que é conhecida por seus habitantes abertos, digamos assim. Chá pronto, acabamos tomando. Não iríamos deixar uma amiga só. Ascendente Aquário. Nessa idade se é muito companheiro. Lembro bem daquele líquido meio verde, meio nojento, com cheiro não menos desagradável. Na minha vez, consegui tomar o equivalente a quatro goles, que fizeram meu braço pesar e cair no chão, assim como meu corpo. E ali passei à noite, no chão, achando que a coceira que sentia eram os percevejos subindo por meu corpo, e sentindo uma vontade que nunca acabava de fazer xixi, o que me fez ir no banheiro, que era um casebre fora do quarto umas quatrocentas vezes. Aquilo devia ser diurético. Eu achava que não conseguia tirar meu corpo do chão, mas me lembro dessas idas à casinha. Não posso afirmar o que é real e o que não é dadas as circunstâncias. Parece que Marinha também pesou no quarto e não conseguiu sair de lá. Me recordo dela ficar soltando uns ruídos. Volto a afirmar: pode não ser real. O mesmo não se sucedeu com o nosso Rei das selvas. Este sim, foi desbravar novos horizontes, e teve seu casaco de lã arrancado selvagemente por arames farpados nervosos. E não satisfeito, afoito pela fama de seus intentos, juntou uma pequena multidão na rua de madrugada, ao cismar que havia alugado com suas amigas um certo galpão. Ou melhor, um errado galpão. Porque não era aquele em que estávamos. Mas ele bateu pé. E as pessoas daquele lugar estão acostumadas com pessoas “perdidas”. E a dona da casa teve de convidá-lo a entrar e subir pra mostrar que ali era sua sala de costura, e que não havia duas pessoas dormindo. Mas Ximbinho teve que ir às vias de fato pra cair em si. E só então sentir muita vergonha de seu público. E só então cair em sim. Isso nos foi contado pela manhã no café com muitas gargalhadas de nossa parte. E eu fiz o favor de acompanhar o mancebo até a loja da dona da casa que fora invadida em prol de uma desculpa. Ele precisava de uma força. O rapaz era educado. Chato foi o caminho até lá. Uma rua onde as pessoas perguntavam das portas de suas casas, ou seja, em um tom mais alto, se Ximbinho tinha recuperado a memória. Tudo isso, de forma meio sarcástica. A dona da casa levou numa boa sem deixar de passar um pito dizendo “juízo menino!“. Não deu pra não rir.
Escrito por Escrito por Reli às 9h59 AM
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Capítulo 9
A vida ia se mostrando. Uma rotina de Yoga, cozinha, conversas, escrita, fim de semana em Ubatuba, novos restaurantes, idas ao Rio de Janeiro, passeios de bicicleta, descobertas de manicures, depilação e cortes de cabelo, conversas no computador, saudades de mamãe, reflexões sobre a vida e idéias do que se fazer mais.
Os passeios de bicicleta foram um achado. No Rio, costumava andar bastante pra lá e pra cá em duas rodas, e tudo era mais ou menos perto. Hoje em dia, morando aqui, atinei que lá na Cidade Maravilhosa tudo é na verdade, do lado. E não tem ladeiras, o que facilita muito. Se quiser subidas e descidas deve procurar a Vista Chinesa, Corcovado, Floresta da Tijuca, mas aí é um passeio a parte do usual. Pertinho pra carioca é poder ir à pé. Pra Paulistano é ir de carro daqui a algumas quadras. No fim de semana no Rio vai todo mundo pro mesmo lugar: praias, lagoa, paineiras, e tudo se torna demasiadamente cheio. Mas é melhor que seja assim, porque em lugares desertos a falta de segurança carioca impera. Não dava pra ser a cidade mais linda do mundo sem um agravante. Em Sampa descobri as ruas de casas e os parques. São os melhores lugares pra passear. Acontece que há uma debandada de gente no fim de semana nessa cidade. Parece que todos ficam estressados da semana e precisam sair daqui correndo pra espairecer. Esse não é o meu caso pois tenho os dias bem tranqüilos. Aliás, devo ser a única por aqui que não precisa correr. Dá até vergonha. E é melhor não me gabar disso também pra não atrair inveja. Mas, atrair inveja, é a minha interpretação dos fatos, porque na deles, faz parte ser produtivo. Só se tiverem um gene sei lá qual que conseguem morar em um lugar calmo com uma vidinha mais ou menos. São acelerados por natureza. Coloca eles fora do Carnaval na Bahia.....se conseguir me conta. Mas, voltando a essas ruas de bairros que só tem casas e ficam desertas e tranqüilas, é muito gostoso passear por elas, ver a arquitetura da cidade, parar em algum lugar pra um café, chegar em um parque e dar umas voltas antes do retorno, e guardar fôlego porque ladeiras existem. E não são poucas, e não são afastadas, e são íngremes. Se torna um bom exercício aeróbico. Pra quem quer ver com bons olhos. Se não é puro sofrimento mesmo. Um dia desses descobri um evento que acontece em várias cidades do mundo: a Restaurant Week; é a semana dos restaurantes fazerem um preço mais acessível no almoço e jantar. É a semana de quem não pode. Vale a pena, pois, muitos restaurantes que participam são bem caros e bem típicos fazendo com que normalmente optemos pelos conhecidos. Gastar uma fortuna no que pode não ser “aquele prato” delicioso é coisa pra quem pode, não pra quem quer. E os que não podem, mas querem, aproveitam esses restaurantes lotados nesses dias. É uma chance pra arriscar. E aí eu pensei: vamos passear de bicicleta, ficar famintos, imaginar aguando o que queremos comer e aproveitar um restaurante que habitualmente não iríamos. Pensei errado. Descobri que isso aqui não é um balneário calorento onde as pessoas vão da praia direto almoçar ou mesmo suadas de passeio de bicicleta em qualquer lugar que seja. Aqui o povo se arruma, é chic, e se fores cariocar, haverá um momento que se sentirá meio fora dessa realidade local. Mas não tive essa percepção. E isso também faz parte do carioquismo, essa falta de noção, esse achar que todo lugar é como o Rio de Janeiro já que é a cidade perfeita. Achar que ser largada é legal, é fashion. Quis então entrar na fila de espera de um restaurante conhecido. Foi Jamaica quem me falou que não estávamos adequados, que seria melhor irmos em casa tomar banho e trocar de roupa. Nessa, o almoço foi em casa mesmo. Com a Maria aqui mesmo dando um jeito. O que também foi bom, porque dá direito a sonequinha pós pança cheia. E ninguém merece almoçar, e em seguida pedalar ladeiras até chegar no lar. De vez em quando me deparo com essas diferenças de cidades. Como quando íamos passear de moto e fazia um calor abafado. Daí eu pensei em ir de short, pois estava quente. Pensei errado novamente. Meu instrutor para assuntos inter estaduais, Jamaica, fez com que eu colocasse uma calça, pois algo poderia voar em minhas pernas e machucar, e ele mesmo trocou o chinelo por tênis. Isso me fez lembrar um fato quando era pequena. Tínhamos ido à praia com meu pai. Depois, minha avó e irmã, ficaram esperando na casa dele, enquanto íamos comprar um desses frangos de padaria, farofa, arroz e refrigerante pra um almoço rápido. Adoro! Meu pai de sunga e descalço e eu com alguma saída de praia. E de moto. Compramos o almoço que ficou no meu colo, ou seja, entre a lombar do meu pai e minha barriga já que estávamos numa motocicleta. Eu era criança, e como tal, não tinha muita percepção das coisas, pois isso era preocupação de adultos, e nesse caminho de volta, o óleo da galinha que estava de lado no meu colo escorreu pro vão da sunga do meu pai. Pra bunda dele. Este começou a gritar que tinha uma coisa queimando em seu traseiro e eu também comecei a sentir queimar minhas coxas. Pra finalizar, ele parou no meio da rua, e essa, tinha duas mãos com uma faixa pintada no chão separando as direções, ou seja, estávamos encima dessa faixa. Meu pai saltou da moto, com uma mão a segurava e com a outra baixava a sunga pra se limpar e abanar, e eu ao descer da moto, acabei por queimar a batata da perna no cano de descarga. Moral da história: comi sem o menor gosto por ter a perna ardendo. Mas, pensando agora que o tempo passou, é bem engraçado. Meio tragicômico. O cara com metade da sunga abaixada, com uma das mãos segurando a moto caindo e a criança chorando pulando com a perna e as coxas queimadas, tudo isso no meio da rua. Em Ubatuba também dei de praticar aeróbica. Acontece que Jamaica gosta de acordar bem cedo pra surfar. E eu não gosto de acordar cedo. E eu não gosto de surfar. E eu adoro abrir os olhos de manhã e ainda poder ficar rolando na cama, tomar café com calma olhando pro nada, ler alguma coisa, tudo isso pra poder ir entrando na vida de vigília aos poucos, bem devagarzinho, sem traumas. Parece que isso que eu chamo preguiça boa de se aproveitar, é pecado, e hoje conjecturam se não é depressão. Nossa, e dá pra se sentir tão bem pecando ou querendo morrer? Vai entender.... No princípio ia cedo com ele, mas a época em que tudo são flores e qualquer maneira de amar vale a pena passou com a chegada do frio, pois o inverno em São Paulo é real, e as manhãs são geladas. Não dá. Acontece que tive um insight de necessidade: arranjar uma bicicleta em Ubatuba, ou seja, outra além da de Sampa, deixar Jamaica ir antes, e eu só dar as caras lá pelo meio dia. Santa iluminação. Daí faço o que já citei e até dou um passeiozinho em algum Shopping da cidade. Umas comprinhas básicas. Um pouco mais de depressão. Que idéia sensacional essa minha. Saio pedalando pela ciclovia, vendo o movimento da cidade, passo por duas praias diferentes em sua aparência, chego na estrada, que é linda, que tem uma floresta verde e úmida imensa e não passa tanto carro assim, percorro uns catorze Quilômetros até Itamambuca, e finalmente chego com calor devido às subidas e descidas da via. Quero deixar claro que subidas e descidas e catorze quilômetros não são um mar de rosas, cansam. Mas é melhor do que bater os dentes de frio com os pés nas areias ainda geladas das madrugadas. Mas a parte boa dessa cansaço, é a chegada com um banho de mar, descanso no Sol, tudo isso caso as montanhas por trás da praia não travem as nuvens ocasionando tempo feio. E isso acontece com freqüência naquelas bandas. As montanhas invejosas agarram as nuvens até elas explodirem em chuva. Que dá e passa. E o sol volta. E como sou justa, um dia é meu e o outro é dele, que é o domingo, quando acordo cedinho com ele rumo às ondas, mas partimos cedo também pra não enfrentar o engarrafamento da volta dos fujões da Paulicéia.
Escrito por Escrito por Reli às 8h21 AM
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Capítulo 8
Existe um dizer que fala que a solução de um problema está no próprio problema. Sempre achei muito sábio, mas, sinceramente, nunca consegui entender como isso se dava. Mas lá nas profundezas de meu ser, a intuição dizia que o caminho era esse. Claro que sempre arrumei soluções pros problemas, mas nunca tinha caído a ficha desta frase. Até que tive um insight. Pude ver e entender a citação . E é tão simples. E é tão interessante. Vamos lá.
Estou casada, amancebada, vivendo em pecado, ou simplesmente morando junto. O que preferirem. São Paulo não tem sido boazinha comigo, considerando que minhas expectativas eram grandes em razão do que já tinha vivido aqui. Aliás, São Paulo, se fosse pessoa, não seria exatamente “boazinha”. Mas quem quer esse rótulo? Ninguém. Enfim. Embora minha vida venha aos poucos tomando rumo, considero esse “aos poucos” muito lento pra minha personalidade sem paciência. Por outro lado, minha personalidade, essa entidade separada do meu querer, não foi projetada com iniciativa. Falta de paciência deveria dar em pessoa com iniciativa. Isso não se deu no meu caso. Portanto, uma razão forte pra eu ainda estar em São Paulo é: amar o Jamaica, e não querer voltar pra casa da minha mãe. Digo isso porque estando perdida e desobjetivada nessa cidade enorme onde todos fazem algo, vivem correndo e tem objetivo, voltar pro Rio onde tudo é conhecido, calmo e lindo parece ser uma solução enquanto outra não se apresenta. E mais, quando estamos longe, vivemos a felicidade de esquecer a intensidade do que não era bom. Diferentemente das lembranças do que gostamos. Nesse caso parece que sentimos o mesmíssimo prazer só de recordar. Então, quando problemas acontecem, já que relacionamento não é fácil - também me caiu a ficha dessa máxima -, não deixo de pensar dramaticamente no pior: o fim de nosso relacionamento. Esse sentimento vem acompanhado de toques de tambor, dor no peito, olhos sem brilho e falta de vontade de tomar banho. O coração fica triste e chora pela possível e ainda fantasiosa perda. Esse é o lado emocional. Mas quando racionalizo de forma mais distanciada num segundo momento, tento buscar uma solução que não me leve de volta pro Rio. E quando não encontro solução, repenso o acontecido e me torno mais tolerante. Por necessidade? Por amor? Os dois. Daí percebo que o problema não era tão importante assim e a solução não era tão difícil assim. E tudo volta à Santa Paz de Deus. E não foi por interesse. Acontece que vir morar em São Paulo com o Jamaica e sair de onde não queria ficar caminharam juntos. Eu queria mudar uma situação que não me era satisfatória e apareceu “alguém” em minha vida. No caso, reapareceu. Sincronicidade. E eu embarquei. Sempre vivi términos, mortes, descidas ao fundo do poço. Sol de casa oito. As situações da minha vida não duraram. Sempre mudei muito. Sol conjunção Urano. Algo me enervava a tal ponto que de uma hora para outra acontecia um click dentro de mim e nada mais daquilo que eu estava vivendo fazia sentido na nova “eu” que surgia. E eu tinha de mudar. E, na maioria das vezes, me achava sem persistência. Mas não conseguia mais estar na situação passada. Eu pensava que nunca cresceria e amadureceria numa vivência ou num relacionamento se eu não fosse teimosa em perseverar. Mas não havia possibilidade de me manter em algo que não fazia mais o menor sentido. Vivia essa dicotomia em cada desejo por mudança. O fato é que por não querer voltar pra casa da minha mãe, reflito com mais paciência, repenso, sinto medo do fim, e consigo perseverar no relacionamento que só tem a crescer com isso já que nos queremos. Se não quiséssemos ficar juntos nada disso teria sentido e eu já haveria retornado pro Rio com casa de mãe e tudo há muito tempo. Então, com tudo isso, me torno mais tolerante, paciente, e assim, consigo enxergar a importância que damos às pequenas coisas. O problema era não querer morar com minha mãe e a solução é não querer morar com minha mãe. É a mesma moeda. É a mesma coisa. É problema e é solução. E aí começo a perceber como não temos noção do todo. Porque esse “todo” que percebi nessa encruzilhada soluciona. Enxergar o todo é ver a solução. É maior que o simples momento. Chego a não ver solução vivendo o momento e pensando sobre ele. Mas ao deixar passar um pouco, consigo perceber como as situações de nossas vidas são perfeitas. Se prestam a um porque, porque esse, maior do que somos capazes de ver vivendo o momento. E me sinto agraciada de ter conseguido perceber dessa forma dessa vez. Porque já vivo a algum tempo e é claro que inúmeras vezes tive essa oportunidade, a possibilidade de perceber da mesma maneira, mais global. E percebi, em coisas pequenas. Mas em algo dessa magnitude, que é “mãe”, que é “amar“, não tinha acontecido. Julgamos tudo e todos tantas vezes achando isso e aquilo, e num instante santo desses percebemos que está tudo certo. Que é pra ser como está sendo, sem tirar nem por. E nos lembramos que o “não julgar” faz sentido. Pra rapidamente esquecermos de novo, sermos impiedosos, julgadores e termos a possibilidade de mais uma vez ver os dois frente a frente: o momento e o todo. E daí escolhermos quem queremos ser novamente. Ou não. Pensando no “perseverar“, entendo os artistas. Os que através do sofrimento criam. Porque esse perseverar que me é novo, causa certa estranheza, e essa, é confundida com sofrimento, tristeza ou angústia. Por ser nova. Por ser um mergulho no desconhecido. Por não ter ainda se tornado um hábito. E estar no vazio, embora desconfortável, abre portas, é um manancial de possibilidades. Porque perdemos as forças e não lutamos mais. Porque entendemos que não mais controlamos nada. Porque enxergamos que voltar pro conhecido não traz felicidade, porque quando estávamos lá já não era como gostaríamos que fosse. Aceitamos o limbo por pura falta de opção. E nessa entrega, nos abrimos aos presentes que os céus nos mandam. Porque enquanto achamos que sabemos melhor sobre o nosso destino, que conseguimos controlar, não damos chance ao universo fazer o que ele sabe. Nos encaminhar. Com um conhecimento maior, com o conhecimento do todo. Sem entendermos como a coisa se deu. Mistério. Que pena que tenhamos que chegar no fundo do poço pra vislumbrar essa luz. Porque não entendemos que o confortável é o caminho e não a luta? Porque não confiamos?
Escrito por Escrito por Reli às 10h03 AM
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Capítulo 7
Como disse antes, as coisas não vinham saindo em São Paulo como imaginei. Até porque puxei do passado uma experiência sensacional que eu já havia vivido ali. Ah as expectativas. Pra que? Os testes que pensei que me chamariam, não existiram. O dinheiro que pensei que ganharia com os trabalhos, não vieram. A princípio uns poucos testes, um trabalho, e depois, parou. A vida foi ficando monótona e a cabeça foi começando a fervilhar procurando alternativas. Trabalhar em outra coisa? Envolveria a sexta-feira, dia que íamos pra praia. Eu não gostaria de perder ou modificar essa rotina, mas sei que quando se ganha algo, uma perda está envolvida. Escrever? Estou tentando, mas como só sei escrever de mim mesma, me sinto um tanto egocêntrica com eu....eu....eu..... Yoga? Precisaria ocupar o meu dia inteiro pra minha cabeça não surtar, mas eu só fazia três vezes por semana. Um curso de escrita? Pode ser. Isso ou aquilo? Quem sabe. O fato é que o tal “não sei” pairava no ar. Na verdade fez um ninho na minha cabeça, teve filhotes e de lá não saía.
Pelo menos a fase de culpa tinha passado. Eu sofro disso. Se acontecer algo bem longe que não tenha nada a ver comigo, sinto-me culpada. De vez em quando essa danada ainda me cata, mas já não é tão dilacerante. Isso porque “mãe” é uma situação difícil. A culpa era em relação a ela, a mãe. Dessa vez, culpa por ter saído de casa. Por tê-la abandonado. Simbioses a parte, porque sentia culpa? Não sei. Só sei que o sentimento era de estar sendo má com ela. A pessoa que me deu tudo, principalmente a vida, esse presente; a pessoa que faria e fez sacrifícios por mim. Eu estava abrindo mão dela em prol de minha vida. Nossa, parece até que eu sou a mãe jogando fora a filha pra ir viver um amor. Me senti sem caráter. Ou eu estava fugindo dela com a desculpa de ir viver minha vida? O fato é que por muito tempo me senti devendo e sendo ingrata. E fiz questão de ir nas datas importantes, pra melhorar o meu sentimento. Claro que racionalmente eu sabia que não estava errada, que tinha esse direito. O de viver a minha vida. E minha mãe também sabia. Não era ela o problema, mas eu. Ela sempre me deu a maior força pra tudo e pra onde eu quisesse ir, nunca foi ciumenta e gostaria muito que eu tivesse alguém pra não ficar só como ela. Então eu era louca? Talvez. Será que tinha algo a ver com um dia ela ter me dito que esperou até o último momento pra engravidar porque sabia que perderia o marido galinha? Sei lá. Será que na minha gravidez passou algum sentimento com esse timbre da pergunta anterior? Pode ser. Mas como provas não existem e eu não me lembro da época fetal, tudo são “achismos“. O fato é que eu sempre quis sair de casa. Desde muito nova me lembro de estar falando nisso. E saí. E voltei. E saí. E voltei. Que carma. Saí de casa a primeira vez quando vim morar em São Paulo pra ser modelo e no ano seguinte Europa. Voltei porque estava na hora de voltar. Depois saí lá pelo retorno de Saturno e retornei novamente depois de um ano sem absolutamente dinheiro algum. Mais uma vez saí pro meu próprio apartamento herdado de meu pai, modificado e decorado exatamente como eu queria e só pra não ser criativa voltei depois de um ano por ter perdido o emprego. Que ladainha. Dessa terceira vez não quis esperar não ter mais nada. Macaca velha. Parece que um ano é o meu limite derradeiro. Nessa vida não duvido mais que ainda haja uma volta. Seria só a quarta vez. Mas preferia que isso não acontecesse. As loucuras da minha mãe com dinheiro me faziam mal porque pensávamos dinheiro de forma diferente. Tenho Lua em Touro. Sou insegura em relação a bens e valores, conseqüentemente sou econômica. Minha mãe além de ser muitíssimo generosa, não consegue viver com o que tem. Se ganhar muito, e não ganha pouco, gastará mais, assim como presenteará mais quem estiver por perto. Não satisfeita, há muitos anos deu de jogar. E o que era uma brincadeira ficou mais engraçado com o ganho de alguns acumulados. Mais dinheiro, mais gastos. Porque não? Esse era seu lema. Malditos Bingos. Acredito que cada um faz o que quer de sua vida, mas, nesse quesito, o lado pessoal falou mais alto e eu me tornei totalmente egoísta em minha opinião. Desejo do fundo do meu coração que os bingos explodam com todos os que estão dentro. Existe um bingo, existe minha mãe que vai ao bingo e perde, existo eu que escuto a ladainha de uma pessoa que poderia estar vivendo muito bem e viajando pra fora todo ano, mas está andando de ônibus e devendo pra tudo o quanto é instituição financeira que se possa imaginar. Pra não ficar nervosa e me meter sem adiantar, ou seja, frustração, prefiro estar longe. Por incrível que pareça, além de ser Bacharel em Psicologia, fiz uma formação, a de Conselheira em Dependência química. Gosto muito desse universo, assim como o de doenças mentais e afins, mas não aprendi e acho que não aprenderei a separar o que é dos outros e o que é meu. Esses assuntos são pesados, eu me envolvo e acabo por sentir o que é do outro achando que é meu. É meio confuso mas é exatamente assim que funciona. Sou sensível ao ambiente em volta. Mas o que eu queria dizer é que mesmo tendo essa formação, e fui boa aluna, não consigo ter o distanciamento necessário pra opinar se minha mãe é ou não uma viciada em jogo. Arranjo desculpas, acho que ela pode não estar jogando, penso que o problema dela é gastar demais pra compensar não sei o que e o jogo entra como mais uma forma de se gastar dinheiro, imagino que ter problemas com dinheiro é uma forma de dar sentido à vida nem que seja com preocupações. Enfim, não chego a um mínimo denominador comum. E não consigo relaxar pensando que é problema dela. Mas porque sempre quis sair de casa, sempre me aboletei na casa dos outros. Sempre tive melhores amigas e sempre praticamente me mudei pra casa delas. Com Damiana, vivi todas as bobeiras da adolescência. Roubávamos o carro de seu pai no meio da noite quando todos de sua casa dormiam e íamos passar em ruas badaladas. Era muito difícil o carro não morrer no meio da rua onde jamais poderia acontecer uma gafe. Fumávamos nas escadas de serviço de seu prédio fingindo que íamos passear com o cachorro, e por vezes cruzamos o porteiro naquele ambiente fechado e enfumaçado. A desculpa era sempre que o cão tinha fugido. A brincadeira mais engraçada era a de Morcego. Amarrávamos na ponta do nylon da vara de pescar do pai dela um pedaço de pano preto com umas chaves no centro pra pesar. Jogávamos pela janela de modo a passar por um galho da amendoeira e cair exatamente onde as pessoas passavam na rua. Puxávamos pra cima, e quando alguém passava, soltávamos uns segundos antes. Aquilo preto descia rápido como se levantasse asas bem encima da cabeça das pessoas. Quem passava tomava o maior susto. Nosso público alvo eram idosas. Deus há de me perdoar por isso. Os atingidos geralmente abanavam tentando se safar gritando e xingando. E, no caso dos mais velhos, até caíam no chão. Perdão novamente. Daí puxávamos o Morcego e caíamos no chão de tanto rir por muito tempo. E ríamos novamente até doer o maxilar cada vez que lembrávamos. Não sei como sua mãe nunca me expulsou de lá. Acho que pra filha não sumir. Uma vez com muito tempo de sobra, resolvi que leria toda a estante de livros do Jamaica. Era farta e bem interessante. E os assuntos eram os que eu gostava: Corpo, Yoga, transformações da mente, espiritualidade, e muito mais. Mas quando li Osho viciei. Eram as respostas aos meus questionamentos. Seus livros viraram meus companheiros e amigos de todos os dias. Viajava com eles, ia à praia com eles. Eu não tinha trabalho, mas Osho ocupava a minha cabeça. A Yoga acalmava minha mente. O computador me conectava com o mundo. Os cuidados com a casa e novas decorações enchiam os meus dias. O aprendizado na cozinha nos alimentava cada vez melhor. Os filmes que pegava nas internets da vida nos divertiam no fim de semana em viagem ou em casa. E uma tarefa estava se tornando muito especial: economizar. Não só pra mim, mas pro Jamaica juntar dinheiro mais rápido pra comprar o que quisesse. Nisso sou boa. Como já disse, sou econômica. Sou capaz de economizar o meu, o seu, o nosso e o vosso dinheiro. É quase uma patologia, mas funciona. Pão dura não é bem o termo. Porque não quero. Mas eu e o dinheiro não nos relacionamos da forma que seria a ideal. Pra eu conseguir gastar algum, preciso ser rápida: se algo me interessa, sem pestanejar, devo comprar. Porque se eu pestanejar, os pensamentos me assumem colocando caraminholas de que eu não preciso, que já tenho aquela cor, que não vou usar, que não tem praticidade, que está acima do preço. E isso é o que geralmente acontece. Então, quando faço uma loucura, que pra um outro é bem normal, me sinto remediada na patologia. Desenvolvi o hábito de ameaçar cancelar qualquer assinatura de qualquer coisa, daí elas baixam pra metade do preço. Se aceitarem o cancelamento, o que é muito difícil, banco e assino de novo com outra pessoa se não me custar mais. Controlo cada conta errada que chega como um cão farejador. E telefonemas maçantes de horas a fio passando de cá pra lá não me assustam, me aguçam. O marido de uma amiga econômica também disse certa vez que tinha se casado com uma mulher barata. Não achei nada interessante a colocação. Mas cabe a mim também. Pelo menos não estou só. Saturno na dois. Verdade seja dita.
Escrito por Escrito por Reli às 12h12 PM
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Capítulo 6
Partimos no dia seguinte. Reparou que as “saídas rápidas pelas esquerda” me atraem? Lá ficamos na casa de uma ex-professora de Inglês dela por dois dias. O suficiente para acharmos chato. Logo no primeiro dia andando pelo centro de Londres, ouvi um rapaz dizendo atrás de mim: “- calça de Yes Brazil, deve ser Brasileira”, virei e rapidamente já estávamos indo almoçar de graça no Pizza Hut onde ele era gerente. Comemos, fizemos uma ficha pra trabalhar lá, e saímos em direção a uma agência que mandava pessoas pra fazer limpeza que ele nos indicou. Faxineira. Mas lá era “cleaner”. Pagava bem. Com um almoço gratuito percebemos que nosso rico dinheirinho voaria pra longe de nossos bolsos rapidamente e que não dava pra bancar a vida de estudantes em Londres se não trabalhássemos ou tivéssemos pais ricos. Como não era o caso, fomos rumo à faxina. Uma vez lá já arrumamos trabalho pro dia seguinte. E quando saímos, no corredor, nos esperava um outro rapaz que havia percebido no nosso sotaque que éramos brasileiras. Este estava voltando pro Brasil e nos ofertou sua moradia. Um Squat de um brasileiro que alugava bem barato pra outros dois brasileiros, ou seja, sublocava. Ficamos as duas no lugar do brasileiro que retornava à sua Terra natal. Ou melhor, apenas eu, porque a “menina” com quem viajei sentiu saudades do marido e voltou pra França. Resumindo: Em um dia comemos de graça e arranjamos emprego, em dois dias estávamos morando, em três dias eu estava só. Ou pior, dividindo apartamento com um Acreano (uma pessoa do Acre), que não aparecia mas quando dava o ar da graça fazia o melhor purê de batatas que já comi. Ele estava há oito meses em Londres, e nos papos em Inglês com o namorado do rapaz que nos cedeu o lugar no apartamento, percebemos que ele misturava as duas línguas quando conversava como se fossem uma só. Assim: “-I work de nine até Five da tarde.“ Pitoresco. Tempos depois de já ter saído dessa moradia encontrei o Acreano na Oxford Street, ou melhor, ele me encontrou, porque eu não o teria reconhecido. Usava roupas pretas de couro com tachas e tinha o cabelo moicano duro de gel em uma cor que não consegui definir. Ele virara metaleíro.
Sem falar Inglês e só, percebi que teria de arranjar um trabalho pra aprender a língua antes de entrar em uma escola pra fazer o mesmo. Assim fui a uma agência de empregos onde se paga para eles te indicarem algo. No mesmo dia já estava indo numa entrevista de garçonete. Mas como se eu não falava a língua? A resposta, quem me deu foi um Português que trabalhava no restaurante em questão: “- sorria sem parar”. Assim fiz, e por causa disso fui admitida. Mas pro outro restaurante da franquia. Porque era na frente do museu Britânico, iam muitos turistas, e eu era bem simpática. Acabei aprendendo alguma coisa de Inglês bem rápido de tanto pedir pros clientes me mostrarem no cardápio o que eles falavam. Com o tempo, a solução foi: quando o dono ia embora, ir pro lugar do lavador de pratos pra ter um sossego. Além de ser uma máquina a fazer o serviço, tendo eu só o trabalho de colocar a louça dentro, não ficava com dor no maxilar de tanto sorrir. E o Espanhol que ia pro meu lugar ganhava a que seria minha gorjeta. Todos ficavam felizes. Trabalhava dez horas por dia. Eu que quis, embora o dono tenha previsto o futuro. Ele disse que era muito tempo e quando eu arrumasse um namorado ia querer diminuir o tempo. Eu disse a ele que quando arrumasse o tal namorado diminuiria o tempo então. Entramos num acordo. Pra mim era bom porque eu não tinha o que fazer e nem com quem falar. No restaurante fiz amizades que me acompanharam até o final de minha estada em Londres. Entrei em contato com o que era Squat, já citado antes, nesse época. O Espanhol lavador de pratos morava em um e ganhava um trocado arrombando e colocando tranca pra quem o contratasse com a intenção de morar num. Squats eram apartamentos da Coroa, porque tudo é da Coroa na Inglaterra. Coroa essa que é colocada na cabeça da coroa rainha. São apartamentos lacrados sem ninguém morando, porque o órgão que tomava conta deles não tinha dinheiro pra reformá-los. Uma vez morando, correrá um processo de uns quatro meses pra te tirar de lá. A não ser que seja pego arrombando quando então será deportado pro país de origem, nada acontece, no máximo terá suas coisas postas na rua caso não saia antes do aviso de saída que chega pelo correio. Eles não podem colocar quem está morando na rua simplesmente por ela não poder morar ali, ou não estar legalizada ali, sem antes correr um processo na justiça. A vantagem de morar num lugar desses é que não se paga nada de nada. Vive-se de graça. O que se ganha é para ser usado ao bel prazer. Geralmente ficam ao sul do Rio Tamisa, região considerada mais pobre, mas ouvi dizer que ainda haviam alguns ao Norte também. Nem precisa falar que em uma semana eu estava morando num com o Português e a Alemã que trabalhavam comigo. Não pelo dinheiro, mas pela aventura. O nosso tinha três quartos, dois banheiros e cozinha. Uma mansão. Pintamos as paredes, compramos televisão, pegamos móveis abandonados nas ruas, compramos e herdamos colchões, e até tivemos uma Pastora Alemã que nos foi dada por uma vendedora de produtos ilícitos que morava no andar superior ao nosso. Quando nosso Reinado no Squat terminou demos Caipirinha pra polícia que a educaria e cuidaria. Seu nome fora dado em homenagem às caipirinhas feitas com a garrafa de cachaça brasileira que minha mãe mandou de presente pro meu patrão, desviada pelos portugueses, trazidas pelo meu pai quando foi me visitar no meio do ano. Mas a previsão do Oráculo aconteceu. Arranjei um namorado e diminuí minhas horas de serviço. Não dava pra trabalhar dez horas, ir e voltar de bicicleta pro Sul de Londres e ainda namorar com alguém que mora no Norte. O conheci numa festa que fui com uma garota que veio morar comigo. Quando morava num Squoat sem saber o que era porque alugava, aquele que eu dividia com o Acreano, bateu em nossa porta uma garota de Brasília. O rapaz que havia ido embora tinha indicado o apartamento pra ela morar também. A própria casa da mãe Joana. Mas eu gostei. Estava no começo do trabalho e ainda um tanto quanto só. Era uma amiga. Ela já havia morado em Londres, já falava Inglês, e já era até casada de mentira com um Francês pra ter livre entrada na Europa e receber o seguro desemprego. Com ela fui a tal festa que conheci meu namorado. Ela conhecia aquela gente toda. Ela fazia parte daquela gente toda. Ela seguia a mesma filosofia de vida daquela gente toda. A Filosofia que tudo pode. Eram Saniases. Seguidores de Osho. Quem escreveu os livros que estão mexendo comigo hoje em dia. Na época tive a experiência prática. Hoje estou tendo a teórica. Mais uma história que voltou. O fato é que vim a namorar com esse Inglês. E foi uma experiência sensacional. Um dia cheguei em sua casa pela hora do almoço pra encontrá-lo e percebi que ele não havia dormido em casa. No dia anterior tivera uma festa que eu não quis ir, e a outra moradora da comunidade, que era sua ex namorada, meio que deixou sair o quanto é difícil quando nosso namorado dorme fora com outra. Fiquei um pouco chocada e me despedi meio atordoada. Fui pra casa e lá tive mais notícias amigas. A garota que eu abriguei, porque de uma vez por todas o rapaz de Brasília não era mais o administrador de quem entrava e saía do albergue, e sim eu, me recebeu em casa falando como eu era bobinha, que não tinha entendido nada, que eles, dos quais ela fazia parte e eu não, prezavam a liberdade nos relacionamentos e só pra terminar falou que eu sofreria muito, que eu deveria cair fora porque eu não entendia nada. Ela havia vivido um relacionamento assim com um dos freaks que moravam na comunidade do meu namorado. Mas eu não contei ainda que nos anos em que morei em São Paulo e Europa estava iluminada. Não sei como, mas o fato é que tive um olhar positivo por tudo o que passei, simplesmente não enxergava o lado mais pesado. Só o bom. Onde foi parar essa pessoa que eu fui? O namorado sabendo que eu estivera em sua casa veio até a minha conversar. A garota estava certa. Ele me falou, de forma diferente, com carinho, a mesma coisa contada por ela. A mesma coisa tomou outros ares. Por incrível que pareça não me senti desrespeitada. Não achei que eles eram freaks. Falei pra ele que eu não gostaria de saber de suas aventuras pois me chatearia. Não gostaria de viver o que já tinha vivido, de chegar em sua casa quando estava combinado de nos encontrarmos, e não o achar e ainda saber do que soube. Mas gostaria de continuar com ele. Eu gostava como era tratada, gostava de estar com ele, e era um Inglês na Inglaterra falando o real Inglês comigo. O fato é que nunca mais percebi nada. Sempre gostei muito de estar com ele e com os dele. Pelo tempo que passei lá construímos uma relação bonita. Viajamos muito acampando nas montanhas Cambrianas com cabrinhas em volta. Conheci seus pais que moravam em casas com a idade do Brasil. Passeei pelas praias geladas, dei adeus a quem passava na locomotiva, troquei de trabalho e conheci mais pessoas algumas vezes. Aprendi a vida deles e não vivida por turistas. Fiquei muito amiga da ex dele e em momento nenhum tive ciúmes. Me sentia incluída, eu fazia parte. Depois, viemos a ter problemas com a garota que tinha morado comigo e naquele momento estava habitando o quarto no andar abaixo do meu namorado. E por vezes fez escândalos nas escadas reclamando de nossos barulhos. Vim a descobrir que ela era bissexual. Tenho pra mim que seu ex namorado também. Enfim, fui muito feliz. O que acontecia por fora, depois do episódio nunca me interessou. Fui adulta como acho que jamais serei. Mas num dado momento, Londres me desinteressou e decidi voltar ao Brasil. Não sem antes dar uma passeada pela Itália onde ficamos na casa de minha Tia em Roma, estadas em Florença, Siena, Nápoles, Palermo, Cefalú e Gibilmana. Em alguns lugares pude ficar em comunidades do Osho, outros não. Alguns pediam exame de AIDS, e como eu não tinha um em mãos, ficávamos em hotéis e albergues mesmo. A despedida foi difícil, mas necessária.
Escrito por Escrito por Reli às 4h59 PM
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Capítulo 5
A minha mudança de Estado pra um estado passado teve o seu porque. A crise da meia idade. Não sei se vocês perceberam, mas a citação passada veio acompanhada de sinos macabros tocando numa igreja abandonada no meio do nada com um cemitério por detrás à meia noite. Perceberá no seu dia. E isso não é uma ameaça. Por um bom tempo das nossas vidas, a gente pensa que “isso” está tão longe até que chega. Sorrateira. À princípio não percebemos, até que não conseguimos explicar mais nada, abobamos total levados pela maré e nos damos conta que se não aceitarmos a tal da crise, como iremos explicar o nosso ser? Nossas dúvidas? Nosso não saber o que fazer ou que lado ir? Nosso querer mudar e não saber pra onde e porque? Nossa letargia?
Crise aceita porque não tem jeito, começamos a repensar toda a nossa vida. O que presta, o que não, o que devemos deixar pra trás, o que não, quem não queremos mais em nosso meio, quem queremos. E tome pensar, porque não conseguimos resolver nada no meio da crise. Só elucubramos. Os que não aceitam são aqueles que resolvem ficar sarados como há vinte anos atrás, namoram e casam com pessoas muito mais jovens, e saem por aí bancando os ridículos sem perceber. Mas, relembrando, errar é humano. E esse poderá ser eu ou você. No meu caso, só fiquei mais calma depois que fui ler sobre a crise da meia idade (os sinos tocaram novamente, ouviu?) num site de Astrologia. Também já fui astróloga. Estudei por bastante tempo na época da doença de meu pai pra não surtar e cheguei até a fazer muitos mapas. Ele teve Alzheimer. Mas não fui muito adiante na profissão. Passei a achar chato fazer o mapa das pessoas e elas estarem procurando mais uma psicóloga do que outra coisa. Embora eu seja formada em Psicologia, nunca trabalhei com isso e não tenho competência para tanto. Então Parei. Hoje prefiro não ir a nenhuma astróloga fazer o meu próprio mapa e trânsitos antes do aniversário porque sou sugestionável e com certeza viverei tudo o que a pessoa falar pra mim. Darei um jeito disso acontecer. Mas gosto muito do estudo, e como sei que quando fazemos nosso próprio mapa interpretamos conforme o que queremos ver, sempre dou uma olhadinha no que anda acontecendo no meu. Existe a hipótese de que eu possa estar completamente errada. Assim não há controle. Assim fiz. Mas li o conceito da crise e os planetas envolvidos e não como isso tudo incide na minha carta natal. Na prática vivi assim: cortei bem o cabelo, primeiro um pouco, que já foram uns dois palmos fechados e ficou bom, depois mais uns 5 dedos e ficou uma bosta. A falta de limites..... Parei com as luzes e a minha sorte é essa moda horrível de raiz mais escura. Tô Fashion. As luzes deram lugar aos brancos, mas não me incomodou tanto até agora, pois não são tantos. Estou nessa de me reinventar. O cabelo também está mais oleoso sem o blondor que o ressecava e o deixava normal. Larguei os pesos pesados que sempre usei em ginásticas e musculações pela vida inteira e liberei o tombo, ou, despencar do meu corpo em prol de uma causa maior. O meu prazer, a busca de algo que toque mais fundo, uma outra forma de espiritualidade. Faço Yoga. Ando lendo sobre, e cada vez mais, fico mais encantada com suas possibilidades. Mas não exatamente só o lado físico, embora pra mim seja bastante interessante o alongamento devido à meus músculos rígidos. Mas à mudança interna que a Yoga proporciona. Pra mim está fazendo muito sentido, o que não quer dizer que seja assim pra todo mundo. Pode soar como um papo meio exotérico, meio cabeça, mas tem me feito bem. O fato é que com a descoberta de novas possibilidades em meu corpo observo novas possibilidades no meu ser. Se torno meu corpo mais maleável, me torno mais maleável na vida. Como é fundamental estar respirando e respiração é vida já que sem ela estamos mortos, levo respiração, prana, à áreas antes inexploradas de meu corpo. Estou fazendo Iyengar Yoga que não é só alongamento, mas contração também, isometria. É bastante especial com várias ações detalhadas em certas partes do corpo com o intuito de se chegar na postura desejada. Não é fácil, mas com a ajuda de uma pessoa bem intencionada que saiba o que está fazendo, com as ações corretas e usando os materiais de aula, é muito interessante. É um momento de meditação. Um momento em que ficamos completamente centrados em nós mesmo. Como se não existisse ninguém em volta. Nós apenas, e nossa rigidez. Porque se vêm outros pensamentos à cabeça nos desestabilizamos nas posturas. Sempre fui muito curiosa sobre psicologias, filosofias, religiões e espiritualidade. Sol de casa oito. Ando encontrando na Yoga isso tudo. O Estado vocês já sabem que mudei. Ando escrevendo também, mas quanto a isso já perceberam, porque estão lendo. E me deparei com algo que tive contato há muito tempo atrás, a leitura de Osho. Isso foi bem característico da fase de voltar ao passado pra se repensar. Lá naqueles longínquos anos, quando fui embora de São Paulo pra Europa, tive contato com muitas pessoas que seguiam Osho. Não à princípio, porque saí de São Paulo rumo a Amsterdã com uma amiga pra encontrarmos seu namorado recém chegado do Japão. Aterrissamos em Madrid, pegamos um trem, trocamos em Paris e continuamos. Nessa viagem nos divertimos bastante com as histórias de um Húngaro que trabalhava num circo que corria a Europa fazendo malabarismos encima de cavalos. Só entendíamos um terço do que ele falava. E também rimos bastante quando em Paris tiraram todos os pinos do baixo que ela levava pra seu namorado tocar embaixo do museu de Van Gogh. Os franceses procuravam drogas, e a gente gargalhava. Que idade. Ficamos um mês em Amsterdã. Natal e Ano Novo. Uma festa bem interessante em que todos saem às ruas naquele frio de rachar com suas garrafas de bebidas ofertando a todos que cruzam. Alguns convidam pra entrar e comer em suas casas. São muito amigáveis esses holandeses. E sua cidade é bem aconchegante com seus prédios baixinhos, todos tortinhos, cor terra, com suas bicicletas por todos os lados, sua liberação e seus canais passando por entre as ruas com seus barcos atracados com gente morando. Mas o destino, que no meu caso era meu casal de amigos, não se quedou ali. Fomos pra Paris, e lá fiquei por dois meses. Primeiro morando com uns modelos que dividiam um apartamento e depois, clandestina na casa de outros modelos que dividiam um outro apartamento. Aproveitei pra estudar um pouco de Francês nas fitas de vídeo que me eram emprestadas no Centro Georges Pompidou. Passeei bastante, me diverti e até fiz jogging em volta do Sena. A Europa já havia me engordado. Não fui eu que comi, que exagerei em croissants au chocolat e crepes de nutella, não, foi Ela, a Europa que me obrigou. Estava fofa. Mas sem trabalho, percebi que o dinheiro vai embora bem rápido, principalmente numa moeda mais forte. O tempo estava passando, o dinheiro indo, Paris já não era mais aquela emoção de ver a Torre Eiffel pela primeira vez mesmo que no escuro, e eu fui começando a pensar: e agora, faço o que? Foi quando conheci uma menina. Vou chamá-la de menina. Hoje pra mim, os vinte e dois anos são de meninas, mas na época me achava uma mulher. Como mulherzinha é pejorativo, ficarei com “menina”, mais de acordo com andar de bicicleta ingenuamente pelas vielas da Europa. Mas só na minha cabeça que isso é coisa de meninas, porque os idosos são bastante participantes em tudo, não se vitimando com a idade. Mas essa “menina” estava indo pra Inglaterra, mais propriamente Londres, aprender Inglês. A conheci numa agência de modelos pra baixotinhas que tem seu único mercado no Japão, ou Taiwan ou outro sítio que não fiquei sabendo. Ela ia deixar o marido trabalhando em Paris pra ir aprender Inglês.
Escrito por Escrito por Reli às 4h56 PM
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